sábado, 22 de setembro de 2012

Fragmento de papiro indicaria que Jesus era casado? O que pensar sobre isso?

Uma pesquisadora da Universidade de Harvard (EUA) divulgou em um congresso na Itália nesta semana a descoberta de um fragmento de um papiro copta - possivelmente feito em algum momento entre os séculos 2 e 4 - e que reaqueceu uma antiga discussão: o texto cita uma suposta mulher de Jesus. Segundo o professor André Chevitarese - do Instituto de História da UFRJ e da Unicamp -, não há evidência sobre a vida conjugal de Jesus, nem mesmo a Bíblia faz qualquer menção. A discussão sobre o tema, afirma o historiador, veio a aparecer somente no século 2 e reflete, nos dias de hoje, tabus erguidos pela Igreja. "Nesse texto que Karen King trouxe não tem história, tem teologia, não tem história."
papiro-fragmento
foto de papiro antigo
"A Bíblia cristã não deixa transparecer absolutamente nada sobre Jesus ser celibatário ou não, mas, com certeza, nós podemos falar que no movimento mais originário, com Jesus ainda vivo, no seu entorno gravitaram homens e mulheres que tiveram a primazia, a possibilidade, em termos igualitários, de dormir com Jesus, acordar com Jesus, tomar um café da manhã, almoçar e jantar com Jesus. Portando, Jesus, no seu tempo histórico, constituiu uma comunidade não apenas de homens, mas de homens e mulheres. Então, o argumento teológico de que Jesus só fez 12 apóstolos é bullshit, isso é falso. Jesus constituiu em torno de si homens e mulheres em uma não hierarquia, uma não hierarquização."
Chevitarese, autor de diversos livros sobre Jesus do ponto de vista da história e sobre os cristãos na Antiguidade, explica que as comunidades da época em que se discutia a relação conjugal desse personagem - séculos 2 e 3 - já não tinham mais contato com a história dele, mas a usavam para defender determinados ideais ou pontos de vista.
"Jesus já ficou para trás há pelo menos 250 ou 300 anos. Então essas comunidades, muito embora se refiram ao que Jesus disse, o que Jesus (segundo elas) disse diz muito mais sobre as dúvidas, as questões que cada uma dessas comunidades cristãs experimenta no seu próprio tempo, do que propriamente uma situação do Jesus histórico lá do século 1", afirma. "Se estabelece ou se usa a figura central ou a referência central do cristianismo para externar preocupações que uma liderança ou uma parte da liderança ou a própria comunidade quer dizer sobre certo objeto. Não temos que conectar isso com Jesus, mas com experiências de comunidade."
Nesse momento histórico, comunidades de cristãos discutiam se o mais adequado era a vida celibatária ou o casamento. "As comunidades estão discutindo 'devo ser um eunuco?', como diz Mateus, 'viver como um eunuco?'. Na tradição de um cristianismo católico, um eunuco se refere a ser celibatário. Portanto, Jesus é celibatário (...) ou devo trabalhar com o modelo de um Jesus que constitui uma família?"
O historiador compara esse período com, por exemplo, um religioso que esteja em uma cruzada contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. Ele pode fazer, afirma o professor, uma leitura própria dos textos da Bíblia para apoiar o seu ponto de vista, digamos, condenando o casamento homossexual, mas permitindo a separação e novo casamento de heterossexuais. "Essas atualizações teológicas são muito mais o 'meu espelho' do que história."
Chevitarese diz ainda que temos encarar as comunidades religiosas como sendo plurais, com cada uma com suas ideias e problemas, mas todas buscando um mesmo modelo a seguir. "Toda e qualquer experiência religiosa (...) é sempre uma experiência humana que busca viabilizar um contato com esse 'mundo cósmico', por isso são sempre plurais e multifacetadas, ou seja, há cristianismos, há judaísmos, há islamismos. (...) Eu não acho que o modelo que aparece aí de um Jesus se referindo a alguém, que a gente não sabe (quem é), mas como 'minha mulher', que isso seja uma discussão que estava em todas as comunidades cristãs, isso é uma questão específica de uma comunidade que introduziu o texto. Eu vejo experiências cristãs, eu não vejo cristianismo. Essa é uma leitura teórica minha."
Karen King, pesquisadora que apresentou o fragmento, acredita que o papiro foi criado entre os séculos 2 e 4 - ainda não foi analisada quimicamente a data do objeto - e que pertença a um texto maior, escrito em grego e que seria um evangelho desconhecido.Fonte: Terra.

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